nunca quis verbalizar-te. sabia que quando te tornasses palavras, serias finalmente real. até aqui não foste mais do que uma lembrança longínqua. conseguimos banalizar-nos de tal modo, que tudo foi tão simples, tão natural.
evitámos trocar palavras sérias. as palavras passam rapidamente a sentimentos, a emoções.
tu e eu sabíamos isso. não seria errado até essas palavras saírem das nossas bocas. não seria importante até um de nós tocar um no outro com palavras. passaram tantos dias que perdemos a conta e em nenhum desses dias exististe.
hoje existes. agora somos palavras. depois das palavras tudo em ti, de repente, se torna real. a tua mão. os teus olhos. o teu cabelo.
agora olhamos um para o outro. agora perdemos a capacidade de falar porque apenas queremos soltar as mesmas palavras.
agora que nos verbalizámos, não sei o que te dizer.
Monday, February 20, 2012
Thursday, December 29, 2011
Our world in 2011
Talvez não pareça mas estas são imagens deste século, deste ano. No nosso mundo actual, há milhares de pessoas a viver desta forma.
O que espero para o próximo ano de 2012 é que comecemos (eu incluída) a pensar um bocadinho mais no mundo à nossa volta e não apenas no nosso mundinho, nos nossos problemas, na nossa infelicidade.
Não muda nada escrever estas palavras... mas também não custa passar os olhos nestas imagens.
Prometo que para o ano faço um post mais agradável, com imagens bonitinhas do ano.
FELIZ ANO NOVO A TODOS!
O que espero para o próximo ano de 2012 é que comecemos (eu incluída) a pensar um bocadinho mais no mundo à nossa volta e não apenas no nosso mundinho, nos nossos problemas, na nossa infelicidade.
Não muda nada escrever estas palavras... mas também não custa passar os olhos nestas imagens.
Prometo que para o ano faço um post mais agradável, com imagens bonitinhas do ano.
FELIZ ANO NOVO A TODOS!
Wednesday, November 23, 2011
Breakfast
todos os dias acordo bem disposta. faço-te sorrisos. faço-te canções. faço-te piadas das quais nunca te ris. ocupo o vazio com palavras porque não suporto o silêncio entre duas pessoas. duas pessoas não podem não ter nada para dizer uma à outra.
quase todos os dias acordo bem disposta.há dias em que o silêncio sou eu e isso incomoda-te. não sabes lidar com ele. desconforta-te. perturba-te. mesmo passados estes anos todos.
custa-me compreender que duas pessoas possam começar a virar costas sem palavras. dormir sem insónias. custa-me entender que se aprenda a viver com o silêncio ou com a indiferença. custa-me perceber que um dia corras o mundo por uma birra minha e no outro encolhas os ombros e reclames em voz baixa.
eu tenho sempre muito para te dizer e é por isso que não sabes como reagir quando não tenho palavras para ti. nunca sei o que tens para me dizer. nunca sei se passaríamos horas calados a encontrar pequenas frases sem nexo para quebrar o gelo.
para ti a rotina é o mais importante. há pessoas que têm que fazer o mesmo, diariamente, para se sentirem vivos. para sentirem que de alguma forma, controlam a sua existência. torna-os mais vivos, mais independentes. nunca foges à rotina, aos horários, à vida regrada e controlada, sem pressas ou desaforos.
não vou nunca perceber o silêncio nem o controlo.
fazes-me o pequeno-almoço, afinal está na rotina.
eu faço-te a vontade e entro nela. calada.
a diferença está na forma como te sentes vivo e em como me sinto morta.
Tuesday, November 22, 2011
Feelings
"faço-te crer que te quero, sem te querer, sem o querer fazer. não te quero dizer que te quero, mas o teu nome teima em não ser apagado. quero-te sem o querer, quero-te sem querer.
canso-me de mim, dos outros. canso-me de me explicar porque ninguém percebe, não querem entender, não tenho jeito com as palavras e os meus pensamentos são demasiados complexos, até para ti.
tanto faz já, digo-te a ti o mesmo que diria a outro qualquer. são só palavras,e o significado? perdeu-se quando te perdi a ti. agora são palavras e digo-as quando me apetece, não julgues que são sentimentos, esses já não os tenho."
canso-me de mim, dos outros. canso-me de me explicar porque ninguém percebe, não querem entender, não tenho jeito com as palavras e os meus pensamentos são demasiados complexos, até para ti.
tanto faz já, digo-te a ti o mesmo que diria a outro qualquer. são só palavras,e o significado? perdeu-se quando te perdi a ti. agora são palavras e digo-as quando me apetece, não julgues que são sentimentos, esses já não os tenho."
Wednesday, November 16, 2011
Monday, October 31, 2011
Friday, September 23, 2011
"Vens para aqui pavonear-te com camisola amarela
Deixa de lado a poesia porque eu não preciso dela
Pega-me com precisão, deixa-me deixar-te vir
Sabes bem isto é tesão, não vale a pena fingir
Um dia destes acordas com saudades do futuro
Salta logo de uma vez antes que se parta o muro
Sempre que te controlares esqueces mais um bocadinho do que poderias ser
Deixa lá de ser mesquinho
Despenteia-me o cabelo faz de mim gato e sapato
Põe de lado a cantoria anda, vá, não sejas chato
Controla-me os passos todos, assedia-me o destino
Faz-te passar por gatuno ou um cruel assassino
O que mais queres que faça? o que mais posso eu fazer?
Sabes que eu sei que queres e não há tempo a perder
Beijo-te primeiro, depois mordo até doer
Puxas-me o cabelo e eu quero obedecer
Vagarosamente dou por mim aos trambolhões
Sigo cegamente todas as provocações
Tranco a minha boca, grito, muda, deixo-me ir
Quero que me sintas distante, a descair.
Vens para aqui pavonear-te com camisola amarela
Deixa de lado a poesia, eu não preciso dela
Pega-me com precisão, deixa-me deixar-te vir
Sabes bem isto é tesão não vale a pena fingir
Um dia destes acordas com saudades do futuro
Salta logo de uma vez antes que se parta o muro
Sempre que te controlares esqueces mais um bocadinho do que poderias ser
Deixa lá de ser mesquinho, deixa lá de ser mesquinho."
Pavonear
A Caruma
Deixa de lado a poesia porque eu não preciso dela
Pega-me com precisão, deixa-me deixar-te vir
Sabes bem isto é tesão, não vale a pena fingir
Um dia destes acordas com saudades do futuro
Salta logo de uma vez antes que se parta o muro
Sempre que te controlares esqueces mais um bocadinho do que poderias ser
Deixa lá de ser mesquinho
Despenteia-me o cabelo faz de mim gato e sapato
Põe de lado a cantoria anda, vá, não sejas chato
Controla-me os passos todos, assedia-me o destino
Faz-te passar por gatuno ou um cruel assassino
O que mais queres que faça? o que mais posso eu fazer?
Sabes que eu sei que queres e não há tempo a perder
Beijo-te primeiro, depois mordo até doer
Puxas-me o cabelo e eu quero obedecer
Vagarosamente dou por mim aos trambolhões
Sigo cegamente todas as provocações
Tranco a minha boca, grito, muda, deixo-me ir
Quero que me sintas distante, a descair.
Vens para aqui pavonear-te com camisola amarela
Deixa de lado a poesia, eu não preciso dela
Pega-me com precisão, deixa-me deixar-te vir
Sabes bem isto é tesão não vale a pena fingir
Um dia destes acordas com saudades do futuro
Salta logo de uma vez antes que se parta o muro
Sempre que te controlares esqueces mais um bocadinho do que poderias ser
Deixa lá de ser mesquinho, deixa lá de ser mesquinho."
Pavonear
A Caruma
Wednesday, September 07, 2011
Não te quero.
decorei-te mais facilmente as palavras meigas. passam meses sem ti e de ti passam mil e uma razões para não te querer. junto-as e tento decorá-las, coloco-te de lado, não tenho espaço em mim para ti agora. dizes que somos almas gémeas de ocasião mas longe de ti, essas palavras perdem sentido. longe de ti deixo de perceber o que me mantém tão perto, o que me faz querer estar perto.
passam meses sem ti e começo apenas a recordar o melhor de ti, as razões que fazem sentido perto de ti.
posso evitar-te sempre. mas vou sempre querer recordar-te para me certificar que não te quero.
junto de ti quero afastar-me. quando estás longe, apenas sei procurar-te.
passam meses sem ti e começo apenas a recordar o melhor de ti, as razões que fazem sentido perto de ti.
posso evitar-te sempre. mas vou sempre querer recordar-te para me certificar que não te quero.
junto de ti quero afastar-me. quando estás longe, apenas sei procurar-te.
Thursday, September 01, 2011
Old times
But I'm the kinda woman
That was built to last
They tried erasing me
But they couldn't wipe out my past
Linguagem gestual
Vou aprender linguagem gestual para poder comunicar melhor contigo.
quando me perceberes melhor, talvez eu te compreenda a ti. talvez me compreenda a mim mesma.
talvez perceba, de vez, aquilo que me completa.
quando me perceberes melhor, talvez eu te compreenda a ti. talvez me compreenda a mim mesma.
talvez perceba, de vez, aquilo que me completa.
Wednesday, August 31, 2011
Wednesday, August 03, 2011
O que eu vejo em ti
"In my experience, the prettier a girl is, the more nuts she is, which makes you insane."
"I like how you can compliment and insult somebody at the same time, in equal measure"
Não tenho gravada nenhuma imagem tua, dos momentos em que te tenho mais perto de mim. Não sei se tenho os olhos fechados enquanto te aperto em mim, se é a tua imagem que se apaga sempre. Ficam as imagens nos outros, são eles que nos vêem.
Pergunto-me o que verás tu em mim.
"I like how you can compliment and insult somebody at the same time, in equal measure"
Não tenho gravada nenhuma imagem tua, dos momentos em que te tenho mais perto de mim. Não sei se tenho os olhos fechados enquanto te aperto em mim, se é a tua imagem que se apaga sempre. Ficam as imagens nos outros, são eles que nos vêem.
Pergunto-me o que verás tu em mim.
Tuesday, May 31, 2011
Não me apetece.
eu ao teu colo. uma camisola que não me pertente, nem a ti já agora. aninho-me em ti e coloco os teus braços à minha volta. surpreende-me sempre a forma incrível como encaixamos um no outro, sem nunca nos termos pertencido. estás com pressa, mas acabas por me apertar e sussurras-me ao ouvido "estás tão carente". quero contrariar-te mas faltam-me as forças, não me apetece fingir-me de forte agora, quero apenas estar ali abraçada a ti. contas os minutos, perguntas-te se já podes afastar-me sem que eu fique amuada contigo. não quero que me largues mas sei que vai acontecer.
cheiramos a noite.
mas tudo o que me apetece é ficar ali, com a tua atenção que nunca é minha.
continuas a falar-me com o teu sorriso, aquele sorriso de que todas falam menos eu. brincas comigo, tentas provocar-me, falas-me na nossa linguagem habitual mas a mim não me apetece... agora não.
agora quero só um abraço.
cheiramos a noite.
mas tudo o que me apetece é ficar ali, com a tua atenção que nunca é minha.
continuas a falar-me com o teu sorriso, aquele sorriso de que todas falam menos eu. brincas comigo, tentas provocar-me, falas-me na nossa linguagem habitual mas a mim não me apetece... agora não.
agora quero só um abraço.
Monday, May 30, 2011
vamos conversar um dia, os dois.
entre quatro paredes, troco-te o rosto vezes sem conta...não sei o que tanto procuro em ti e tento encontrar nos outros. não sei o que te falta que tanta falta me faz. ninguém te substitui mas eu procuro-te em todos, menos em ti, esqueço-me de te procurar em ti mesmo. vamos conversar um dia, os dois.
Wednesday, April 13, 2011
Tuesday, April 12, 2011
Eu gosto que...
qualquer uma com metro e meio de pernas. com cabelos loiros encaracolados, ligeiramente colados aos lábios encarnados, semi abertos. com a pastilha enrolada nos dedos, com unhas que deixam marcas em ti. qualquer uma com cérebro a menos, rabo a mais. qualquer uma que se desfile, que te faça olhos, que se babe para ti. qualquer uma que te enrole entre as longas pernas, sem saber o teu nome de cor.
...te engane.
...te engane.
às vezes
às vezes, gostava de conseguir desligar por um momento, parar de pensar, ficar no vazio. gostava que perguntassem por mim, mesmo quando estou bem à frente de toda a gente. às vezes, queria ser indiferente para os outros. que ninguém me procurasse para coisa nenhuma, que ninguém se importasse comigo ou com o que eu quero e sinto. às vezes, preferia ser invisível, poder levar a vida que quisesse sem que ninguém me olhasse ou se preocupasse comigo. queria poder cometer todos os erros sozinha, sem ninguém para me levantar do chão no final, sem ter ninguém ao meu lado que gosta, realmente, de mim. queria ser qualquer coisa que não incomodasse os outros, que não os fizesse perder tempo a pensar na minha vida, no que eu sou, no que eu faço...como se de algo assim tão importante se tratasse.
às vezes, queria ser eu. sozinha.
às vezes, queria ser eu. sozinha.
Wednesday, March 23, 2011
Geração à Rasca - Mia Couto
Uma outra perspectiva...
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa
abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes
as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus
jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a
minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)
vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós
1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram
nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles
a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes
deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de
diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as
expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou
presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o
melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas
vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado
com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A
vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem
Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde
não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar
a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de
aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a
pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e
da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que
os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,
nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter
de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e
que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,
porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,
querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo
menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que
o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois
correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso
signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas
competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por
não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração
que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que
queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a
diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que
este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo
como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as
foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não
lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de
montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o
desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e
nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como
todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados
pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham
bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos
que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,
oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no
que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida
e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem
fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e
a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
By Mia Couto
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa
abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes
as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus
jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.
Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a
minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)
vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós
1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram
nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles
a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes
deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de
diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as
expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou
presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o
melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas
vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado
com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.
Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A
vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem
Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde
não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar
a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de
aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a
pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e
da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que
os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,
nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter
de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e
que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,
porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,
querem o que já ninguém lhes pode dar!
A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo
menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que
o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois
correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso
signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas
competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por
não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração
que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que
queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a
diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que
este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo
como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as
foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não
lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de
montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o
desespero alheio.
Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e
nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como
todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados
pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham
bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos
que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,
oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
subir na vida.
E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no
que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida
e indevidamente?!!!
Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem
fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e
a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
By Mia Couto
Thursday, January 20, 2011
Uau, eu consigo mesmo passar os limites parte IV
deixas-me dores no corpo, para me recordar dos momentos de loucura. deixas palavras tuas no ar e o teu cheiro preso às minhas mãos.marcas-me por dentro e por fora. queres pertencer-me à força e eu faço tudo para não te deixar entrar mais em mim. para te retirar o que me roubaste, o que levaste contigo e que não te pertence.
não vais ter-me completa.faltam-me as partes que levaste contigo.
posso nunca mais conseguir retirar-te esse bocadinho de mim.
mas nunca vais ter-me,
completa.
não vais ter-me completa.faltam-me as partes que levaste contigo.
posso nunca mais conseguir retirar-te esse bocadinho de mim.
mas nunca vais ter-me,
completa.
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