Wednesday, March 23, 2011

Geração à Rasca - Mia Couto

Uma outra perspectiva...

Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa
abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes
as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar
com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também
estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância
e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus
jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a
minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)
vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós
1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram
nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles
a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes
deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de
diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível
cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as
expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou
presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o
melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas
vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não
havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado
com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A
vaquinha emagreceu, feneceu, secou.
Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem
Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde
não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar
a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de
aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a
pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e
da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que
os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade,
nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.
São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter
de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e
que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm
direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,
porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem,
querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo
menos duas décadas.
Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por
escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na
proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que
o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois
correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade
operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em
sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso
signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas
competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por
não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração
que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que
queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a
diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que
este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo
como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as
foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não
lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de
montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o
desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e
inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no
retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e
nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como
todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados
pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham
bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados
académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos
que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e,
oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a
subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no
que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida
e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme
convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem
fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e
a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.
Haverá mais triste prova do nosso falhanço?


By Mia Couto

Thursday, January 20, 2011

Uau, eu consigo mesmo passar os limites parte IV

deixas-me dores no corpo, para me recordar dos momentos de loucura. deixas palavras tuas no ar e o teu cheiro preso às minhas mãos.marcas-me por dentro e por fora. queres pertencer-me à força e eu faço tudo para não te deixar entrar mais em mim. para te retirar o que me roubaste, o que levaste contigo e que não te pertence.
não vais ter-me completa.faltam-me as partes que levaste contigo.
posso nunca mais conseguir retirar-te esse bocadinho de mim.

mas nunca vais ter-me,
completa.

Sunday, January 16, 2011

Tenho que me transformar numa Barbie.

In her shoes

"Maggie Feller: Shoes like these should not be locked in a closet! They should be living a life of scandal, and pasion and getting screwed in an alleyway by a billionaire while his frigid wife waits in the limo thinking that he just went back into the bar to get his cellphone. These are cute too.
Rose Feller: Please tell me you just made that up.
Maggie Feller: Look, if you're not going to wear them... don't buy them! Leave them for someone who's going to get something out of them.
Rose Feller: I get something out of them! When I feel bad I like to treat myself. Clothes never look any good... food just makes me fatter... shoes always fit."

Wednesday, December 29, 2010

Wednesday, December 15, 2010

Desvarios

Há coisas que acabam, tão rapidamente, como começaram.
Começaste sem eu me aperceber, surpreendeu-me a falta que me fazias, sem nunca me teres deixado sequer.
Não te tive, nem me deixaste e, no entanto, partilhámos uma história.
Sem eu dar conta, desapareceu. Sem aviso prévio, sem dramas e noites mal dormidas.

Há coisas que não fazem falta na nossa vida, que não existe um lugar preparado para elas... por essa mesma razão, desaparecem discretamente, deixando apenas uma leve sensação de que um dia estiveram por ali.

Mestrado





e pronto... parece que acabou!

Saturday, December 11, 2010

Conversas parte I

Dizes-me que ninguém é substituível...

pois eu digo-te que sim, algumas pessoas são. Só ainda não percebeste a diferença.

Thursday, December 09, 2010

Quinta-feira costuma ser...

um dia da semana que eu aprecio, particularmente.
hoje...parece segunda-feira. Já estou a detestar o dia e são apenas 9h05 da manhã!

Sunday, December 05, 2010

A latinha das memórias

Sou completamente viciada em publicidades...e há uma, neste momento, que é uma verdadeira desilusão!
Daquelas coisas muito boas quando começam...mas que no final, não chegam nem próximo da expectativa!






E há muitas coisas destas na vida.

Thursday, December 02, 2010

Hoje foi...

o dia de entregar, finalmente, a tese de mestrado.


agora estou a olhar para ela, um livro encadernado, completo, com o meu nome da capa.
e como muitas outras coisas que levamos tanto tempo a conseguir, não lhe consigo atribuir um significado.

Wednesday, December 01, 2010

75 anos

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma mas para não ter que desabotoar o casaco. Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido,sozinho como sempre serei. E penso se na minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não incarna a substância de milhares de vozes, a fome de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior.Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência(...)Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, sinto-me com sono; olho,sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que esquecido estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto, a interpelar a vida! a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui eu assim!


Fernando Pessoa.
Bernardo Soares - Livro do Desassossego

Tuesday, November 30, 2010

Let it snow!

Está a nevar no Fundão... e eu em Aveiro.


Há dias assim, em que dava tudo para estar longe daqui. Estar em casa, protegida.

Sunday, November 28, 2010




"How do you say goodbye to someone you can’t imagine living without?"

Fevereiro 2009

"

- Há quantas estrelas no céu? Tu sabes?
Ele: Não.
- Sabes o que eu penso?
Ele: Não.
- Que sabes quantas estrelas há... mas não me dizes.
...
- Tenho certamente mais pensamentos e dúvidas todos os dias do que o número de estrelas que há no céu. Sabias?
Ele: Não.
- Gostavas de saber o número de estrelas no céu?
Ele: Não.
- Eu gostava. Assim saberia se os meus pensamentos e dúvidas são mais do que as estrelas. Podes contá-las para mim?
...
- Podes amor? Podes?

Ele: Não.

"

Friday, November 26, 2010

The Social Network




"What are you doing?"
"Checking in to see how it's going in Bosnia."
"Bosnia? They don't have roads, but they have Facebook."


Gostei.