A nossa vida só faz sentido quando a deixamos meio envolvida com outras vidas por aí. Quando de certa forma conseguimos marcar alguém ou alguma coisa com partes de nós. Não vivemos se permanecermos isolados no nosso mundinho, perdidos nos nossos próprios pensamentos, a beber dos nossos sonhos e fantasias. Isso não se chama viver. Isso é o que todos temos (pelo menos): a nós próprios na nossa bolha transparente...frágil, a nossa vida é tão frágil.
Temos a necessidade de possuir a vida de alguém, pintar o nosso corpo com traços delicados desenhados pela mão de uma outra pessoa. Escolhida a dedo. (será que escolhemos?) Temos a capacidade de amar várias pessoas ou coisas. O nosso amor não tem limite, estende-se capaz de abraçar o mundo, oferecer aconchego.
Um dia olhamos para alguém, os nosso olhares cruzam-se e mesmo antes de nós sabermos, as nossas almas apaixonam-se, prometem juntar-se. Não sei se aconteceu assim comigo mas eu quero pensar que sim, é mais bonito. E toda a gente gosta de histórias bonitas.
Lutamos todos os dias pela nossa felicidade como predadores atentos, famintos e sempre insaciáveis.
Um dia, sem darmos conta, o nosso corpo enche-se de felicidade. É tão repentina que nem sabemos muito bem o que fazer com ela, então, exibimos um sorriso lamechas o dia inteiro causando inveja aos que nos rodeiam.
Sabemos desde o início que, quanto mais nos deixarmos conquistar por esta felicidade tentadora, quanto mais amarmos, mais nos aproximamos do sofrimento que combatemos momentos antes de sentirmos tanta felicidade. Mas isso não importa. Não queremos saber porque amar é demasiado bom. Demasiado bom.
É por isso que a nossa vida é tão frágil. Porque sabemos que não a podemos viver sozinhos. E porque partilhá-la com alguém é um risco. Risco de amar demais?
A primeira vez que julgamos amar sabemos que não há nada mais puro que aquilo que o nosso coração nos sussurra. Olhamos para trás e não há nada que nos faça temer o que temos pela frente. Não existem medos nem limites. Sentimo-nos com força para superar todas as barreiras e amar eternamente. Amar desmedidamente. Fazemos promessas sem fim e juras inocentes. O desconhecer da dor, faz-nos amar com tudo o que temos em nós. Desacreditamos quem nos diz que a vida não é fácil porque sim...ela parece-nos tão simples. Basta amar assim. Amar demasiado.
Há depois aquele dia em que tudo se desfaz mesmo aos nossos pés. Tentamos agarrar com muita força mas quando finalmente abrimos as mãos resta pó. Escorrega-nos assim por entre os dedos. Choramos. Choram por nós. E sabemos o que é sofrer a partir desse dia. Porque não há amores maiores. Porque não há desilusões menores. E isto é verdade.
Ainda me lembro daqueles dias em que acabava por não resistir e, antes de adormecer, pensava em ti. Fantasiava sem limites transformando-te no segredo mais bem guardado de todos. Imaginava-te comigo. Perguntava-me se ficaríamos bem um ao lado do outro de mãos dadas. Nos meus sonhos ficávamos sempre bem. Como na minha mente não havia limites, não havia impossíveis, tu eras meu. Criava um “nós” como uma criança que brinca às bonecas juntando namorados, vestindo-as de noivas felizes por encontrarem o seu príncipe. Quando me apercebi, já era um vício passar horas a pensar em ti e criar um mundo ao teu lado. Já não podia sobreviver sem aqueles momentos em que ficava sozinha e podia finalmente fechar os olhos e ser feliz. Era tão real. Conseguia até desenvolver diálogos que teríamos os dois. Conseguia adivinhar-te, prever as tuas reacções. E ia mais longe ainda. Imaginava como seria o que eu ainda não conhecia de ti. Cada pedaço teu. Cada sentimento. Cada hesitação.
Será que de tanto sonhar assim tu decidiste tornar-te real?
Não respondas. Não importa também. Não quero saber se ainda sonho. Prefiro que sejas um sonho. Que a nossa vida seja um sonho. Porque os sonhos não têm limite.
Às vezes, quando estou contigo, dá-me vontade de te apertar tanto a mim. Apertar-te muito e muito e muito e esperar que fiques em mim para sempre. Talvez se te apertar muito tu fiques. Quando adormeço com o peso do teu abraço, adormeço completa. Adormeço viva. Adoro todas as vezes que me olhas descaradamente. E dizes que gostas de mim e eu podia ouvir-te repeti-lo indefinidamente. Gosto de ti. gosto de ti. gosto de ti. Como se fossem as únicas palavras restantes.
Inevitavelmente, perante tanta felicidade, a tal proximidade entre o amor e o sofrimento, acaba por invadir alguns dos meus pensamentos. Tentamos evitá-los o máximo que podemos mas eles estão lá...dispostos a atormentar o nosso mundo de fantasias.
Mas nem isso me incomoda agora. Amar-te. E o medo de te perder só me faz amar-te mais.
Tenho saudades tuas. Já te mostrei o que é sentir saudades enquanto ainda temos do nosso lado essa pessoa. É por conhecermos bem a sensação de vazio quando o momento terminar, que a saudade permanece mesmo quando estou preenchida de ti. O mesmo se passa com amar, às vezes, sofremos mesmo quando ainda temos a nossa mão entrelaçada...
Mas...eu acho que tudo isso faz parte.
e eu quero amar-te assim. com direito a todos estes desvarios.
/eu própria