
Podemos evitar tudo. Somos donos da nossa vontade.
Podemos evitar pisar as poças de água na rua, comer mais um gelado.
Evitamos sair até tarde, evitamos ouvir determinadas músicas.
Se essa for a nossa vontade, evitamos faltar a uma aula, comentar a roupa de quem passa na rua.
Podemos evitar alguém de quem não gostamos ou assistir a um programa de televisão.
Evitamos andar descalços ou à chuva. Evitamos dizer algo mais desagradável ou até sorrir para alguém.
Temos a capacidade de evitar pensar em certos assuntos ou de magoar os outros.
Podemos evitar um beijo.
Podemos evitar um olhar.
Podemos evitar...
quase tudo
o que não podemos mesmo evitar é gostar de alguém. não podemos escolher de quem gostamos. não podemos escolher deixar de gostar. não podemos evitar olhar para essa pessoa e ser essa mesmo, sem porquês ou explicações. não evitamos sofrer por isso mesmo que queiramos muito. não evitamos querer essa pessoa mais que tudo à nossa volta.
Eu até te fazia a vontade e evitava gostar.
Desculpa, mas não consigo.
"Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer. Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós…
(...)
O que é que todos nós queremos, no fundo dos fundos? Queremos querer. Queremos ter. Queremos ser queridos. Queremos ser tidos. É o que nos vale: afinal queremos exactamente o que os outros querem. O problema é esse."
Miguel Esteves Cardoso
/eu própria