
- "Quem inventou o Beijo?"

Estão a bater à porta.
Silêncio. Daqueles silêncios que fazem um eco em nós. Um silêncio que nos incomoda ao ponto de sentirmos uma vontade quase incontrolável de gritar até perder a voz. Ficamos sem saber para onde olhar. Deixamos de conseguir pensar sequer, o silêncio ocupa todo o nosso ser, transborda-(nos). Fico louca assim. Não consigo ouvir nada à minha volta, apenas o som do silêncio...e esse é o pior dos sons. É o mais capaz de nos levar até à insanidade.
Sei que vou endoidecer aqui. Suplico a mim mesma por um grito. Abraço-me e deito-me comigo mesma no mais instintivo dos desejos. Fecho os olhos. Espero que este silêncio desapareça. Imploro por um som teu. Consegues curar-me. Quebra o silêncio.
- Quem é?
(...)
/eu própria

(...) já não sei quanto tempo passou. Será que foram horas? Sim, horas...já se passaram horas. Continuo impávida. Abraçada a mim mesma com os olhos doridos. Sem alma. Sem vida.
Já estou familiarizada com o toque do telefone. Sabes quando ouvimos muitas vezes as mesma palavra ou o mesmo som. Se dissermos sempre “eu eu eu eu eu eu eu eu” muitas e muitas vezes, depois esse som é só um som, faz parte de nós. O toque do telefone já faz parte do meu espaço agora. É como se nem o escutasse e, no entanto, ele está ali ao meu lado. Há horas. Já se passaram horas.
Ainda bem que estou sozinha em casa. Achas que nos achariam doidos por discutir assim? Gritos, insultos. Depois o silêncio. Depois as lágrimas. Depois o arrependimento. Depois a dúvida.
Agora, apenas o telefone (...)
Imagino-te do outro lado. Agarrado ao telefone. A marcar indefinidamente o mesmo número. Será que tens mesmo esperança que eu pegue no telefone e te escute? O que me quererás dizer? Achas que temos mais que dizer? (...) às vezes, tenho medo de esgotar as palavras contigo. Tenho medo de um dia chegar junto de ti e, de repente, não ter nada para te dizer, não encontrar nenhuma palavra que se encaixe. Achas que isso nos pode acontecer?
Quero ter forças para chorar mas não consigo mais. Quando choramos demasiado atingimos aquele ponto em que já não sabemos o que é chorar nem para que servem as lágrimas. Já não nos lembramos porque começámos a chorar, já não sabemos se nos aliviou. Então paramos de chorar. Não há mais lágrimas.
Está a começar a incomodar-me o som do telefone não percebo porquê. Porque será que não desistes? Aliás, porque minto eu? Se desistisses talvez eu te ligasse. Talvez...
(...)
Agora percorrem-me milhares de lembranças. Quando inventei aquela música para ti e a gritei sozinha na rua...lembro-me da tua cara, não sabias se havias de rir ou pegar em mim e internar-me num hospício, decidiste-te por me abraçar e eu acabei por me calar e substituir os berros por um sorriso.
Talvez devesse atender...
Quando naquela vez eu meti na cabeça que podíamos mudar a cor do teu quarto e acabou tudo cheio de tinta menos a parede...lembro-me da tua expressão, querias chatear-te mas foste incapaz de gritar e mais uma vez acabámos abraçados.
Vou atender...
Do outro lado apenas o som do teu choro...
Passam-se horas.
Passam as lembranças.
Setembro 2004
Encontrei o textinho perdido no meu quarto entre alguns rascunhos meus. Achei piada a esta parte...
Conclusão do dia: nunca me lembro do dia anterior...será grave? Se deixarmos uma situação arrastar-se talvez, mas só talvez, com um bocadinho de sorte, ela desapareça assim do nada. Tipo magia!
/eu própria

(...)-Não fomos um Nós, ainda nem somos um Eu e Tu. Somos um nada que não se assume. Somos dois corpos sem rumo. Sem Ser. Essência. Acho que é o que nos falta, uma Essência. Uma coisa que depois chamaríamos de Nossa. E aí sim. Aí perderias, aí sim essas tuas palavras fariam algum sentido. Percebes?
Sei porque revejo-te nas minhas coisas. Como podes dizer que não te possuo se estás dentro do meu olhar? Sabes o que é olhar outros rostos e ver o teu? Sabes o que é trazer o teu nome comigo? Em qualquer sítio, em todos os meus momentos. Estás TU. Por isso sim, eu tenho-te. Não como um objecto que podemos chamar de nosso. Não, não é isso. Tenho-te em mim. Parte de mim. Continuação da minha pele. Partilha da minha respiração, fraca por não te apoiares em mim totalmente. Estás comigo.
Sabes o que me preocupa? Que penses mesmo que podemos ser alguém. Um só. Como podes pensar que seremos felizes...
Eu não esqueço, não posso simplesmente. Tu sabes que sim. Que também te trago comigo, não és minha, mas eu trago-te em mim.(...)
O que é afinal ter alguém? É ter por escassos momentos? É tocar, sentir, olhar?
É o quê?
Até onde estarei disposta a ir?
[questionable]
/eu própria

"Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa, não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior.
O que é bonito no querer é sentirmo-nos subitamente incompletos sem a coisa que queremos. Quanto mais bela ela nos parece, mais feios nos sentimos. Parte da força da nossa vontade vem da força com que se sente que ela nunca poderia querer-nos como nós a queremos. Querer é sempre a humilhação sublime de quem quer. Por que razão não nos sentimos inteiros quando queremos? É porque a outra pessoa, sem querer, levou a parte melhor que havia em nós, aquela que nos faz mais falta. É a parte de nós que olha por nós e nos reconcilia connosco. Quanto mais queremos outra pessoa, menos nos queremos a nós…
O que é que todos nós queremos, no fundo dos fundos? Queremos querer. Queremos ter. Queremos ser queridos. Queremos ser tidos. É o que nos vale: afinal queremos exactamente o que os outros querem. O problema é esse."
Miguel Esteves Cardoso


Deitamo-nos sobre o soalho de madeira velha, húmida, cansada de histórias e pecados. Falamos em silêncio, um silêncio confortável que nos relembra aos dois o que é estar vivos. Eu deixo de saber em que penso. Peço tanto para deixar de sentir, para deixar de sentir o aperto que me esmaga a cada minuto. Sinto apenas que estás ali comigo pelo som fraco da tua respiração. Por segundos pergunto-me em que pensas tu.Mas isso não interessa, o meu objectivo é adormecer a alma, desligá-la da carne para sempre. Preciso de ti ao meu lado, mesmo em silêncio. Preciso para que me lembres que é por ti que o faço. Para te conseguir olhar como antes, para te olhar sem sentimentos.Fecho os olhos com força, imploro para que o aperto no peito desapareça (há quem lhe chame amor, eu prefiro assim.) quero tanto descansar, dormir sem a tua imagem desta vez. Tu permaneces ali deitado. Tranquilo. Mais uma vez não te resisto e olho-te ternamente. O teu rosto está sereno. Queria mesmo saber em que pensas. Volto a concentrar-me em mim, esforço-me por fingir que não existes. É aqui que o tempo pára. [Parada no tempo]. Não sei se são horas ou apenas uns segundos mas deixo-me levar. Vagueio por aí, livre. Deixo-te de parte. Deixo de te sentir em mim, na minha pela. No meu olhar. Acordo e o que sinto não é alívio mas sim um medo intenso de te ter perdido para sempre. Percebo finalmente que não posso não te ter. Não quero desistir de te ter, de te trazer comigo. Viro o mundo de pernas para o ar se for preciso. Vou entender-te. Vou decorar-te. Saber tudo o que te contorna. Vou falar o teu dialecto até que as minhas palavras te soem a verdades e não apenas a palavras. Vou guardar-te em mim, dentro de mim. Levanto-me e sorrio desta vez. Agora sei.
[Give yourself a chance to breathe
I'll give you the room you need
No place in you for me
And me, I need you so]
/eu própria

Gosto de ti, entre uma mentira e outra.
Minto sim. Escondo-me de ti, não te falo...não te digo, não te posso dizer. Não queres ouvir, percebes? Não me deixas dizer-te...
Gosto de ti. Não preciso de meses para o fazer (como tu).
Não preciso de um motivo (o motivo és só tu).
Não preciso de me contorcer de dores para o mostrar, não preciso exibir que o meu mundo sem ti não me entusiasma, precisamos entusiasmo para viver, para sair da cama todos os dias e enfrentar o que nos espera (tu não tens, eu quero tê-lo, para ti)
É preciso ser amor o que sinto?
Não sei se é então...
Mentiria mais se te dissesse que sim...porque eu não sei essa resposta. Porque eu também me recuso a dizer que amo, porque é cedo, sabes? É sempre cedo quando a palavra amor nos surge no coração. Se a dissesse, acharias ridículo. Não me aches ridícula, não te rias assim das minhas confissões fieis.
Se é amor? Diz-me tu. Diz se eu pensar em ti todos os dias, se achar que me fazes sombra de tanto que te sinto perto, diz se isto é amar. Talvez não. Se eu te sentir a respiração quente no meu pescoço, arrepiar-me à tua passagem despercebida, se eu dormir contigo dentro do meu abraço (tu nunca me tocas),
protegido pela noite...diz-me se é amor.
Diz se é amor o que sinto, antes que eu prefira ficar doida.
Gosto de ti, numa mentira que criei para não te perder. Para não saíres de perto de mim.
Onde te quero cada vez mais.
Já prefiro conhecer-te.
Vou perguntar-te.
A tua resposta vai magoar-me... e eu,
(não vou suportar a tua perda)
Vou sorrir.
Mas diz.
/eu própria

- Nem que te perdesse agora. Não percebes que não importa isso, não têm relevância as palavras soltas que possas dizer. Quando me ofendes sem que o percebas. Consegues, ao menos, ver isso?
Sei porque revejo-te nas minhas coisas. Como podes dizer que não te possuo se estás dentro do meu olhar? Sabes o que é olhar outros rostos e ver o teu? Sabes o que é trazer o teu nome comigo? Em qualquer sítio, em todos os meus momentos. Estás TU. Por isso sim, eu tenho-te. Não como um objecto que podemos chamar de nosso. Não, não é isso. Tenho-te em mim. Parte de mim. Continuação da minha pele. Partilha da minha respiração, fraca por não te apoiares em mim totalmente. Estás comigo.
Sabes o que me preocupa? Que penses mesmo que podemos ser alguém. Um só. Como podes pensar que seremos felizes...
Eu não esqueço, não posso simplesmente. Tu sabes que sim. Que também te trago comigo, não és minha, mas eu trago-te em mim.
- Então porquê tornares tudo numa coisa impossível? Odeio coisas que se intitulam impossíveis.
Porque não podemos deixar-nos de teatro? Não suporto mais esta vontade. Este desejo que tenho que esconder como se fosse proibido gostar.
Não quero nem posso continuar a olhar-te sem te abraçar, a medir cada gesto que fazes, a doer-me por dentro quando me tocas. A ignorar que me viras a cara para evitar que sintas o mesmo que te descrevo assim, sem pudor.
- Então é assim?
Queres que finja que não...é essa a tua palavra final. Ditas uma sentença aos dois, como se tivesses esse poder.
Queres que eu te apague de mim, que te retire à força do meu corpo. Que deixe de pensar em ti a todas as horas. Faço da tua vida minha, improviso diálogos que nunca iremos ter, conto-te o meu dia para que assim te sintas mais nele, para que percebas o quanto lhe pertences.
Não vês nos meus olhos a importância que tens? Não te vês reflectido neles? Não te assusta olhares-me e veres o teu próprio rosto. Fraco!
És um fraco.
Desistes sem tentar. Sou eu que te trago, tu apenas aceitas o que o destino de dá, sem recusas ou amuos.
Não posso gostar de um fraco. Não posso querer comigo uma pessoa que não aceita que é especial. Tu não imaginas o quanto.
Desenho a nossa vida no pensamento, não sei se isto te acontece também, já vi que não. Eu imagino-te do meu lado. E sabes a verdade? Nesses meus sonhos estamos sempre a sorrir.
Pelos vistos, tu achas que merecemos apenas sofrer. Que devemos permanecer assim para sempre, não merecemos amar.
Desculpa, não posso apagá-lo. Não posso fingir que não aconteceu, que não te obriguei a assistir a cada passo. Também tu o fizeste, também tu me descreveste os teus sentimentos. Eu também os sei, também te conheço.
Ao contrário de ti, só te adoro mais ainda. Só protejo ainda mais a imagem desfocada do teu beijo.
Nem todos somos fortes.
Nem todos conseguimos aceitar ser felizes. Às vezes, o medo é maior.
Vai ser assim.
Vou gritar-te estas palavras.
/eu própria

Ouço um ruído insuportável. Este ruído tortura. Desfaz-me aos poucos. Calmamente.
Contorço-me de dores. Arrepio-me ao som penetrante dessas vozes. São vozes esse ruído.
Passeio-me por aí envolta em dialectos que não percebo mas que me atormentam. Estão a consumir-me devagarinho, deliciando-se com o prazer desmedido que isso lhes provoca. Vozes cruéis. Vozes numa língua que eu não entendo. Não me foi concedido esse poder.
Apenas as consigo calar por instantes que me parecem inexistentes, de tanta falta que me fazem.
Tornam-me vulnerável. Despida de quaisquer protecções.
Escondo-me.
Torno-me transparente por estes lados.
[Where do the voices come from?]
- Andamos cá com um feitiozinho...
