Friday, September 08, 2006

Espelhos Partidos

-o espelho está partido, já viste? exactamente no sitio onde lhe tocámos no outro dia...
-nao vejo nada
-mas está, as vezes gostava que pela primeira vez pudesses ver com os mesmos olhos que eu
-sabes bem que os teus olhos já foram os meus, que já brilharam juntos com a mesma intensidade
-mas agora o espelho está partido e nada o vai trazer de volta

-és a unica que o ve assim, eu acho que ele nao está partido
-para mim está, sei que nunca mais vou conseguir passar por ele e ver-me claramente, sem sentir que ele parte a minha imagem ao meio,e que me marca ,relembrando para sempre o que lhe aconteceu
-ficas triste?
-muito, estava habituada a ver-me nele todos os dias. passava por ele e ficava horas a ver o meu reflexo, gostava do que via...adorava o jeitinho especial com que ele me desenhava os contornos, a forma como ele me desejava
-achas que vais conseguir outro espelho?
-ja passei por alguns
-e entao?
-nada, nao vejo nada. nao me vejo reflectida neles, olho para lá...sei que me querem, mas eu nao apareço

-o que fiz eu ao espelho para ele se partir assim? eu achava que ele nunca se iria perder, pensei que podia estar ali uns dias e desaparecer nos outros
-ele morre de ciumes que te olhes noutros espelhos
-achas que nao podes ficar com este?
-nao quero, o espelho esta partido e nao sei o que fazer com ele

(és o espelho onde me vejo todos os dias, estas partido...e nao sei o que fazer contigo)

/eu propria

Nuvens de Açucar


- porque é que as nuvens nao sao todas feitas de açucar?
- o que estas a dizer?
- as nuvens...deviam ser todas doces...
- cala-te, nao ha nuvens doces
- tu nunca me ouves, eu sei que me achas louca
- nao acho
- sei que pensas que eu nao percebo as coisas, que vivo no
meu mundo
- cada um tem o seu mundo, tu és diferente...so isso!
- eu vejo mais queres tu dizer, eu sei aquilo que tu te recusas a ver, eu sinto o que a maioria das pessoas como tu nao querem sentir. sei que as nuvens as vezes sao feitas de algodão doce e tambem sei que agora olho para o ceu e vejo nuvens normais
- nuvens normais? nao consigo imaginar o que será uma nuvem fora do normal
- agora sao todas brancas, alguns farrapos pelo céu sem importancia e que fazem com que as pessoas deixem de reparar nelas, percebes?
- nao
- porque sera que nao ves? preciso de fugir deste espaço onde nada do que eu digo faz sentido, sinto-me com forças, a adrenalina corre nas minhas veias e estou a arder de ideias e ambiçoes
- entao utiliza essa tua energia em alguma coisa produtiva
- tenho tanta pena que aquilo que eu te digo nao faça qualquer sentido na tua cabeça, obrigas-me a deixar-te
- nao digas disparates, tu estas bem comigo, estas habituada a isso. é uma comodidade para ambos
- eu vou procurar as minhas nuvens de algodão doce porque eu tenho a certeza de as ter visto um dia. quero correr por aí, deixar de ser mais uma pessoa para ser eu mesma, deixar de acreditar no tempo e andar livremente, sem pressas... sem ninguem que nao oiça o mesmo que eu, que nao dançe ao som das mesmas historias, que nao beba as palavras e os cheiros com a mesma intensidade
- estas cada vez mais louca

- estou louca sim, mas uma louca que começa agora a ser feliz...

/eu propria

Inicio do Fim

porque agora nada é como antes, posso mostrar o que é passado porque o tempo deixou de existir para mim...ja nao te sinto, ja nao fazes sentido...
iniciei a caminhada até ao mar


Deito-me na minha cama de barriga para cima, não sei o que quero, tenho aquele aperto no meu peito que desconheço a proveniência...olha a janela, chove lá fora e a única imagem que tenho é o teu rosto desfocado...Os meus olhos fecham lentamente e entro numa espécie de transe, não sei se durmo mas vagueio de repente por outro mundo…sinto o meu corpo levitar e subitamente já não controlo o meu pensamento que recai inevitavelmente sobre ti.Sinto o teu toque agora mais pesado que nunca, ouço a tua voz apesar de não perceber as tuas palavras, no entanto, sorrio timidamente…sei que estas aqui.Abraço-te e tu pegas na minha mão, queres levar-me e eu não sei bem para onde…deixo-me conduzir por ti…o tempo parece agora não ter existência, realidade e sonho confundem-se e não tenho nenhuma certeza a não ser que quero estar ali contigo, já não tenho medo porque a tua mão segura firmemente a minha. Caminhamos assim durante momentos que me parecem eternos, nada à minha volta me é familiar e sei que tu também não conheces os caminhos por onde me levas…sei que também não queres conhecer (o desconhecido agrada-te).Não suporto mais ter os olhos abertos, estão pesados e acabo por fechá-los…tu não hesitas e tocas os meus lábios com os teus…como é bom beijar-te, por segundos anseio permanecer assim para sempre mas sei que terá um fim breve, puxas-me para ti e deitas-me sobre algo que me é impossível definir, não vejo onde estamos e a única coisa que me interessa és tu. Passeias o meu corpo suavemente, os gemidos são difíceis de conter, fazes-me feliz e não quero parar…hesito novamente mas tu sussurras ao meu ouvido palavras que não percebo e isso basta-me…Entrego-me a ti, não sei o que está a acontecer mas sei que nada poderá voltar atrás…tão suave como uma gota de água sinto o meu corpo humedecer…para te acolher no seu interior, também ele ter quer…Passam-se momentos que mais parecem intermináveis e desespero agora…tu permaneces com a mesma calma…olhas profundamente nos meus olhos e dizes sem palavras tudo o que eu precisava ouvir…estamos mergulhados em suor que queima os nossos corpos, és meu como nunca antes ninguém fora, perdes a calma agora…suspiras também...a nossa respiração acelera já nada mete medo… o mundo cala-se à nossa volta para que tudo possa ser perfeito…trouxeste o céu até mim, imploras-te à lua para ser só nossa nessa noite…não queres que nada estrague o nosso momento.Sentimos uma explosão de sentimentos e aperto-te a mim…deixo a minha marca em ti e sei que ficaste em mim para sempre…Tornas a minha boca tua…envolves-me nos teus braços e adormeces assim, esgotado de paixão…já não posso mais estar ali e sei disso, contra a minha vontade os meus olhos tendem a abrir-se…por fim estou acordada na minha cama, a chuva ainda escorre nos vidros da minha janela, a vida afinal continua…o aperto desapareceu do meu peito porque agora sei…Tu existes…estás comigo, és meu… levanto-me com o meu melhor sorriso e sei que te amo…

(adeus)


/eu propria

Caminhar de mãos dadas (mas nao desta vez)

ela estava encostada a uma rocha, tentava a todo o custo encostar-se o mais possivel...nao queria que os seus pés ficassem ao sol, descalsa como estava certamente iria queimar-se (nao estaria ja queimada?)...
parecia entretida sem nunca retirar os olhos do chão numa incansavel luta para fugir ao sol que teimava em ganhar,em espaço, à sombra.ele ja estava a observa-la ha algum tempo, sabia muito bem que ela nao se queria queimar, ela tinha-o avisado que a ultima coisa que lhe poderia acontecer era queimar-se com o sol...mas ele nem sempre o tinha evitado...preparava-se agora para a enfrentar
.tambem ele descalso, caminhou pela areia e quando se aproximou ela fingiu nem o ver, continuava ocupada na sua tarefa (fugir de ti)...ele chamou-a e estendeu-lhe a mao, aí ela levantou os olhos vazios...sem o brilho habitual e isso chocou-o um pouco...fez sinal para que ela lhe desse a mão e fizesse o mesmo caminho com ele, mas nao desta vez.quantas tinham sido as vezes que ela aceitara caminhar de maõs dadas com ele...quantas as vezes que confiara naquelas mãos que a apertavam, que lhe davam segurança e lhe mostravam caminhos aliciantes que a tornavam estranhamente feliz...quantas (talvez tantas que nao posso conta-las sequer), mas nao desta vez.
era sempre irresistivel ver aquela mão chamar por ela, aquele olhar que ela ja conhecia...sorrisinho traiçoeiro de quem mente por prazer, mas ela gostava dele assim...mas nao desta vez.estava cansada, sufocada de tanta dor e desilusão, sabia que aquela mão que se lhe estendia à frente apenas a levaria para mais um caminho com um unico fim, o sofrimento.sabia que aquela mão a levaria a pisar a areia quente, e aí sim...o sol queimaria mais uma vez, entao todo o esforço dela junto à rocha seria em vão...nao, nao podia ceder à tentação de mais uma vez caminhar com ele (lutei tanto para te esquecer).
baixou a cabeça mostrando-lhe que nao queria, que desta vez nao iria com ele por aqueles caminhos desconhecidos...nao e nao, nao queria...nao podia, era a prova que era forte (tu és forte, tu consegues...[têm-me dito]).entao o rapaz, sem sequer uma hesitação, desistiu (desistes tao facilmente).
virou as costas, ela olhou ligeiramente para ele...sabia que mais cedo ou mais tarde o sol lhe iria queimar os pés, mas nao se importava agora! chorou, mas desta vez com a noção que era o fim...que estava livre, pura...sabia o quanto lhe custaria esperar que o sol desaparecesse para entao caminhar em segurança, sem se queimar na areia...tambem sabia que isso era quase impossivel, acabamos sempre por queimar os pés com o sol, toda a gente sabe isso!mas ela ja nao queria saber...iria esperar o tempo que fosse preciso ate deixar de avistar o rapaz, nesse momento irá levantar-se e fazer o caminho sozinha, sabe que o sol vai queimar, que os pés vão doer, mas acredita tambem que o mar estará no final dessa caminhada para a acolher...e aí nada a irá perturbar, a areia deixa de queimar.


(ainda nao iniciei a minha caminhada ate ao mar porque ainda te consigo ver...mas sei que cada vez mais longe...afasta-te)


/eu propria

Abre a Janela

olho nua para o espelho partido, sinto que alguém me agarra, sinto os dedos sujos de uma mão
apertados contra os meus lábios impedindo-me de gritar, sinto o corpo preso, seguro a uma
força invisível. escuro...frio...começo a sufocar e posso ver no espelho as lágrimas escorrerem
apesar de não as sentir.toda eu estou imune, suja,perdida,lançada a um destino que não quis...


desespero...


subitamente consigo soltar-me desse ser que me aprisiona, gritar "ESTOU FARTA" e correr, correr muito para lado nenhum, correr para fugir apenas de uma pessoa: de mim!
a cada passo sinto-me mais afastada de ti, desse corpo em que habito. arranco os ponteiros gigantes daquele relógio sem horas que eu e tu construímos, acabo de vez com o tempo impossível que criámos, paro de fingir que "está tudo bem", que a vida é esse sol laranja...dispo a minha pele, com nojo dela...daquilo em que me tornei, corro mais e mais, nao encontro um único caminho, a minha vida de repente fica um deserto solitário no qual não me é permitido
mudar de rumo. deixo-me cair cansada, ainda mais perdida...choro até não suportar mais. talvez o muro posso ser destruído, quem sabe se as fitinhas com cheiro a baunilha ainda existem...e eu possa novamente sorrir.
despe tu também essa pele, deixa-te ser quem és...senta-te no muro comigo, ajuda-me a destruí-lo. pedir-te isto a ti que habitas dentro de mim não deve ser pedir muito...


ja abriste a janela hoje?

/eu própria

Felicidade


“Ninguém deve perguntar-se isso: porque estou infeliz? Esta pergunta traz em si o vírus da destruição de tudo. Se o perguntarmos, vamos querer descobrir o que nos faz felizes. Se o que nos faz felizes é diferente daquilo que estamos a viver, ou mudamos de uma vez ou ficamos mais infelizes ainda.”Zahir, Paulo Coelho


fiz essa pergunta vezes e vezes sem conta...por vezes altero para "porque sou feliz?" mas o resultado é o mesmo...um vazio inexplicável, como se certas perguntas simplesmente não devessem ser feitas, como se determinadas respostas não pudessem existir...como se a felicidade fosse na verdade um tabu do nosso
século...sou feliz...infeliz...não sei e talvez já nem queira vir a saber, talvez prefira esta ignorância...porque
os ignorantes são sempre os mais felizes, porque são esses os únicos a possuir um sorriso sincero, livre de
qualquer preconceito ou juízo...queria viver na criança que em tempos habitei, aquela que desconhecendo a
injustiça ficava feliz apenas com o baloiço do fundo da rua, aquela criança que vivia do rebuçado da vizinha da avó,que brincava aos "tachinhos" no jardim e comia um gelado no fim da tarde. porque me roubaste tu a
inocência? porque me puxaste por uma mão e, à força, me fizeste ver o mundo, conhecer aquilo que devia ser
proibido?...o amor que não existe, que me retiraste cruelmente? porquê? não me canso de pensar em
ti...revejo mil vezes a nossa historia, o teu sorriso, o teu olhar...revejo cada passo, cada hesitação, cada
certeza e incerteza e não percebo onde errei. odeio-te para te amar mais ainda...e vivo assim e piora cada dia porque te espelhas em cada olhar meu...és feliz?



/eu propria...